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  Católicos

Convertam-se enquanto é tempo

 

 
A Quaresma vai dando seus passos avançando em direção à Páscoa e os frutos têm de aflorar: Na Quarta-feira de Cinzas, o Senhor nos convidou à conversão; já nos convidou à Penitência com Jesus no deserto, para vencer a tentação; mostrou-nos na montanha que pela oração se contempla a glória da transfiguração e neste Terceiro Domingo a liturgia da Palavra centra-se abertamente no tema da conversão para a renovação batismal.


“Conversão segundo a tradição judeu-cristã, significa dar as costas para a alienação provocada pelo pecado e voltar-se para Deus. Em referência a esse processo, a escritura usa o termo grego “metanóia”, para indicar essa mudança da mente e do coração pela qual a pessoa se afasta do pecado e volta-se para Deus... O Novo Testamento descreve de maneiras diferentes a conversão, começado pela exigência que Cristo faz de arrependimento, no início de sua vida pública (Mc 1, 14-15), até a dramática conversão de Paulo, no caminho de Damasco (At 9,1-9). A conversão é evento e também longo processo de vida, bem como requisito fundamental para o seguimento de Cristo. Responder à mensagem de Jesus Cristo implica não só mudança interior, mas também uma mudança de comportamento com os frutos das boas obras.” (L. Borriello, 2003.)

 

O evangelho (Lucas 13,1-9) propõe a conversão através de uma parábola e de um comentário de Jesus sobre dois tristes acontecimentos que ocorreram, muito provavelmente nos tempos de Jesus: uns galileus que o prefeito romano mandou massacrar enquanto ofereciam um sacrifício no templo de Jerusalém. Não sabemos a que episódio Lucas se refere, ainda que se tenha notícias, especialmente pelo historiador Flávio Josefo, de que Pilatos, responsável direto pela crucificação de Jesus, foi um dos políticos mais perversos e venais da administração romana.

“De acordo com Josefo, em ‘A guerra dos judeus = Antiguidades judaicas’: ‘cerca de três mil morreram em uma rebelião em 4 a.E.C. e, mais de trinta mil pereceram em outra rebelião por volta do ano 50 E.C. (...) Já a embaixada a Gaio, do Filosofo Fílon, descreve Pilatos como um homem de inclinação bastante inflexível, muito pouco misericordioso, bem como muito obstinado. Fala de sua corrupção, e seus atos de insolência, e sua rapina, e seu hábito de insultar o povo, e sua crueldade, e seus constantes assassinatos de pessoas sem julgamento e sem condenação, e sua incessante, gratuita e grave desumanidade. Pilatos era excessivamente iracundo, e sempre um homem das paixões mais ferozes. Pilatos é, para Fílon, o garoto-propaganda de um mau governador.” (Nogueira, 2009.) Outro episódio a que Lucas se refere é muito mais normal, um acidente de trabalho, de tantos que ocorrem na vida, no trabalho  e diante dos quais se se pergunta por quê? E Jesus termina o seu comentário dizendo: “Se não vos arrependerdes, perecereis todos de modo semelhante.” (Lc 13,5) 

 

Os males que sobrevêm às pessoas, tipo as recentes catástrofes do Haiti ou do Chile e tantas outras, não se podem considerar como castigo de Deus. Não sejamos ligeiros ao julgar, nem pensemos que o mal que nos pode sobrevir é sinal de uma culpa, que Deus castiga. Qual o significado destes episódios narrados por Lucas? Deus tem algo a ver com isto? De imediato não. Deus não é venal como Pilatos e não tem nada a ver com o acidente da torre do muro que rodeava a cidade de Jerusalém; essas coisas acontecem na vida. Isso nos ensina que não podemos viver nossa vida sem sentido. Tudo aponta na direção de um chamado à conversão e a contar com Deus em nossa vida. Jesus não faz o anúncio de Deus como juiz, faz uma leitura realista do que ocorre e do que sempre ocorrerá, às vezes pela maldade humana e outras porque não podemos dominar a natureza.

 

Por outro lado, Jesus aproveita a ocasião desses fatos nos quais tantos morreram para recordar a seus ouvintes e a todos nós, que é preciso converter-nos para não perecermos por nossas culpas, para que se vier o mal, nos sirva de salvação e não de condenação. E que ninguém diga que não necessita converter-se. Se alguém pensa dessa forma, é um pobre soberbo. Recordemos outra vez que o justo peca sete vezes ao dia, mas sete vezes se levanta, enquanto que o ímpio cai e permanece em sua queda. A diferença entre um e outro não está, portanto, em que um peca e o outro não, mas em que um se arrepende e se converte, enquanto que o outro se obstina em seu pecado.

 

Então Jesus contou esta parábola: “Um homem tinha uma figueira plantada em sua vinha. Veio a ela procurar frutos, mas não encontrou. Então disse ao vinhateiro: ‘Há três anos que venho buscar frutos nesta figueira e não encontro. Corta-a; por que há de tornar a terra infrutífera?’ Ele, porém, respondeu: ‘Senhor, deixa-a ainda este ano para que cave ao redor e coloque adubo. Depois, talvez, dê frutos... Caso contrário, tu a cortarás.” (Lc 13, 6-9)  

 

A figueira era símbolo de Israel no Antigo Testamento, concretamente nos profetas. “A figueira é uma das árvores mais comuns e generosas da Palestina e seu fruto é apreciado e abundante. São o símbolo mais eloquente de Israel, representa o povo eleito. Com a videira, a oliveira e a romãzeira, a figueira é uma das árvores frutíferas mais comumente mencionadas na Bíblia. No apólogo das árvores de Joatão, a figueira é uma das árvores que serve tão bem à espécie humana que não abandona seus serviços para tornar-se rei (Jz 9,10s). “Sentar-se debaixo da videira e da figueira sem ninguém para inquietar” é uma expressão proverbial da paz e serenidade da vida do campo (1Rs 5,5; Mq 4,4; Zc 3,10). A figueira aparece nas parábolas dos figos ruins, podres (Jr 24, 1ss) e da figueira estéril (Lc 13,6-9). A figueira que não dá frutos é um símbolo do Israel descrente, que é amaldiçoado por sua falta de fé e permanece estéril.” (McKenzie, 1984.)

 

Diversamente dos outros evangelistas que nos falam de uma figueira estéril, que secou na mesma hora ou pouco depois (Mc 11,12-24; Mt 21,18-22). Lucas, o evangelista da misericórdia, fala de mais um ano de espera, antes da intervenção definitiva. Ele apresenta um Deus paciente, tolerante com a fraqueza humana, compreensivo com a dureza da nossa mente e do nosso coração. Três anos sem encontrar frutos, decide o proprietário cortar a árvore de uma vez. Mas o agricultor pede ao senhor mais um ano. Ele cavará e a adubará bem, para ver se assim dá frutos, se não der, cortará.

 

A parábola é um convite para considerar a Quaresma como um tempo de graça que é concedido para que a figueira produza frutos. Olhemos para nossa própria vida, vejamos se somos como essa figueira, consideremos que talvez seja este o ano que o Senhor nos dá para darmos o fruto devido.  Se ainda não decidimos converter-nos, modificando nossos pensamentos, nossos projetos, nossas atitudes chegou a hora de fazê-lo agora.

 

O ensinamento da parábola é claro: daquele que ouviu a mensagem do evangelho, Deus espera frutos saborosos e abundantes. Não quer apenas floradas e folhagens exuberantes, práticas religiosas externas. Ele não se satisfaz com aparências, procura obras de amor.

 

“A parábola da figueira faz pensar tanto no povo de Israel que não reconheceu a suprema visita de Deus através de Jesus, quanto na comunidade cristã, que muitas vezes faz de tudo, menos o que Jesus lhe mandou dizer e fazer. É a figueira que não dá fruto, ocupando o terreno inutilmente. Tudo perdido? Não. Há uma chance. Assim como o agricultor pede um prazo para cuidados especiais, Jesus também intercede como advogado junto ao Pai (12,8; João 2,1), para dar mais um prazo. Quem sabe se, com cuidados especiais, a comunidade, ouvindo a palavra de Jesus e vendo o seu exemplo, não poderá se converter para continuar a sua palavra e ação em favor de todos os que anseiam pela vinda do Reino? Hoje nos preocupamos muito com o vazio das igrejas e a busca das seitas. Por que o povo vai buscar em outros lugares? Não é sinal de que ele não está encontrando na Igreja os frutos de que precisa para se libertar e viver? Em vez de condenarmos o povo e suas tentativas, deveríamos ver se não é a Igreja que está secando e se tornando estéril.” (Storniolo, 1992.)

 

Talvez nossa vida esteja sendo também estéril porque estamos, quem sabe, centrando-a em nós mesmos: nossa família, amigos, pessoas com as quais nos relacionamos, girando em torno de nós mesmos, valorizando-as na medida em que nos servem. Dar frutos significa justamente o contrário. É estar atento a quem necessita algo de mim: uma palavra, um gesto, uma parte de meu tempo ou atenção. Dar fruto é estar disponível, ser servidor, pensar no outro, ser capaz de amar gratuitamente o outro sem exigir resposta. Deus espera que sejamos capazes de dar frutos se não o fizermos nossa vida transcorrerá estéril e insignificante.

 

No entanto, nos custa dar frutos de verdade. Em nosso trabalho de todos os dias, em nossas relações sociais, em nossa vida familiar... “Custa-nos muito mudar por dentro. Estamos instalados, com muito gosto, na mesquinhez, Isto é, à sombra da nossa figueira, frondosa, talvez, mas estéril, com todas as soluções na mão, mas sem aplicar nenhuma para nos renovar e melhorar os outros; somos nós, cada um de nós, os chamados à reforma da conversão. Ninguém é neutral e inocente; todos somos culpáveis individual e solidariamente. E não basta tranquilizarmo-nos com a crítica ou a denúncia da culpabilidade alheia. Jesus disse. ‘Se não vos converterdes, morrereis todos do mesmo modo.’ (Lc 13,5) De um coração convertido aos valores do reino de Deus e do evangelho seguir-se-ão naturalmente frutos visíveis de uma conversão que toca a realidade da vida. Mas esta conversão é um processo contínuo; não é um dado instantâneo, pontual e de uma vez por todas, mas constitui um crescimento ininterrupto e sempre ascendente. A conversão do coração a que nos chama a Quaresma, além de se expressar na vida e se conhecer pelos seus frutos, tem um sacramento que a conduz: a Penitência ou Reconciliação, o sacramento do perdão em que Deus nos reconcilia consigo e com os irmãos.” (Caballero, 2000.)

 

O evangelho atrela a paciência ao crescimento, a vida e os frutos da figueira; isto está vinculado em definitivo com o amor, que faz parte da autêntica paciência. Quem ama tem paciência, pois a vida cresce devagar, tem suas horas, seus ritmos e tempos, vai por muitos caminhos, especialmente quando se refere a nosso crescimento espiritual. Quem não ama a vida não tem paciência com ela. Deus é o grande agricultor fiel e paciente porque é o amor a fonte de toda paciência e de toda vida.

 

Removamos a terra, tiremos tudo o que torna infecunda a nossa vida e deixemos que a graça de Deus a fertilize. Deus continuará esperando de nós. Como Deus de salvação ele sempre oferece oportunidades de converter-nos.

 

Padre José Assis Pereira


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