Canais
 

 

 
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  Católicos

Maria uma mulher provocante

 

O quarto evangelho desde o séc. II foi atribuído ao apóstolo João, mas hoje alguns estudiosos acreditam que ele é expressão de uma escola e de uma comunidade concreta, do primeiro século, chamada “comunidade do discípulo amado”.

A figura de Maria, a mãe de Jesus, aparece no quarto evangelho em duas ocasiões, no começo e no final. Em Caná (Cf. Jo 2, 1-12) e no calvário (Cf. Jo 19, 25-30) essa “mulher” está presente, no começo e no fim da vida pública, no momento em que o Messias inicia sua obra e na hora da morte, quando a consuma.

O papel de Maria no plano da salvação, não é passivo, nem se limita apenas a dizer “sim” e aceitar a encarnação dando à luz ao Filho de Deus. Passados os longos anos da vida oculta de Jesus em Nazaré, apresenta-o definitivamente ao mundo, à comunidade messiânica em formação.

No evangelho de João, no episódio das bodas de Caná, Maria abre o livro da vida pública de Jesus e no calvário aparece fechando este livro.

Diferentemente dos sinóticos, neste evangelho Maria dá à luz o seu Filho em Caná, pois o Filho de Deus não chegaria para a humanidade se essa “mulher” não provocasse a sua hora.

Maria aparece em Caná com uma função bem determinada: ela é a “mulher” que precede o aparecimento do Messias. Melhor ainda: ela é a “mulher” que provoca o aparecimento do Messias! Ela já se encontrava lá na festa de casamento, quer dizer ela simboliza o Antigo Testamento e ajuda a fazer a passagem para o Novo. Jesus não faz parte do Antigo Testamento. Junto com seus discípulos ele é o Novo Testamento que vem chegando. Tanto em Caná como ao pé da cruz Maria é o elo entre o que havia antes, e o que virá depois.

Em Caná Jesus chegou ainda como um ilustre desconhecido, embora já houvesse sido batizado e apresentado ao mundo por João Batista, o “precursor”.

Em ambas as situações, Jesus dirige-se a Maria não com o seu nome próprio, mas sim, com o nome de “mulher” termo comum usado por ele ao dirigir-se às mulheres (cf. Mt 15,28; Lc 13,12...). Mas aqui, dito à sua mãe tem uma conotação especial. Estaria Jesus desconsiderando o papel de Maria como sua mãe? Diz João Paulo II em sua Encíclica “A Mãe do redentor”: «É significativo que, dirigindo-se à sua mãe Jesus a chama de ‘mulher’ [...] como duvidar que esta frase atinja em profundidade no mistério de Maria, pondo em realce o ‘lugar’ singular que ela tem em toda a economia da salvação? [...] Maria permanece inserida naquele mistério como a ‘Mulher’ indicada pelo Livro do Gênesis (3,15), no princípio, e pelo Apocalipse (12,1), no final da história da salvação» (RM n. 24).

Portanto, a expressão “mulher” usada por Jesus é uma evocação simbólica a Eva, a mãe de todos os viventes. Alguns Padres da Igreja interpretaram “a mulher” (Maria), unida intimamente ao Homem novo (Jesus), sinal do mundo novo que se inicia. Ou que Maria significa e personifica a Sião messiânica, que reúne ao seu redor seus filhos no final dos tempos, representada na Bíblia com traços de mulher e mãe, ela é a personificação de Israel. Israel, em hebraico é feminino: os profetas aproveitaram isso e introduziram o simbolismo conjugal para descrever a relação de amor do seu povo com o Senhor.

No relato das bodas de Caná, em uma aldeia da Galiléia celebra-se uma festa de casamento. Na tradição judaica, a festa de casamento era um símbolo da relação de amor esponsal de Deus para com seu povo. No meio da festa o vinho acaba. Vinho que na Bíblia, é símbolo da felicidade e do amor. Os seis potes de pedra vazios e as núpcias sem vinho representam a religião judaica de purificações, de práticas e ritos sem sentido, incapazes de comunicar paz, serenidade, alegria. A situação triste do povo de Israel substituiu o amor para com o Senhor pelo cumprimento de disposições jurídicas. Esse modo de relacionar-se com Deus nunca proporcionou alegria e vida nova.

Para o Cristo transformar água em vinho, seu primeiro sinal, toda iniciativa partiu de Maria. Uma vez este realizado, todas as demais iniciativas partirão de Jesus. Daqui para a frente são as palavras e gestos de Jesus que vão dar rumo à vida do povo.

Tendo desempenhado a sua missão, Maria com Jesus e seus discípulos foi para Cafarnaum retornando ao seu silêncio habitual, onde como diz são Lucas, “guardava todas essas coisas, meditando-as em seu coração” (Lc 2,19.51).

Esta presença de Maria no início dos sinais de Jesus, é dupla: Como “mediadora”, apresentando a seu filho a necessidade dos que participam da festa: “Não havia mais vinho, pois o vinho do casamento havia acabado” (Jo 2,3). Não pede expressamente um milagre; mas suas palavras incluem certa esperança de que Jesus intervenha na situação de necessidade. E como “evangelizadora” pelo que diz na ocasião: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5).

Fazer o que Jesus diz acolher, escutar e viver sua palavra. Maria remete a Jesus. Ela não é o centro, porque também ela, é serva do Senhor que tornou a Palavra do Senhor acontecimento em sua vida (cf. Lc 1,38.48). Maria «ensina-nos o primado da escuta da Palavra na vida do discípulo e missionário [...] Em Maria a Palavra de Deus se encontra de verdade em sua casa, de onde sai e entra com naturalidade. Ela fala e pensa com a Palavra de Deus; a Palavra de Deus se faz a sua palavra e sua palavra nasce da Palavra de Deus [...] Ela, (Maria) da mesma forma como deu à luz ao Salvador do mundo, trouxe o Evangelho a nossa América» (Aparecida n. 271,269).

A piedade popular sempre viu na solicitude de Maria pelos noivos de Caná um modelo de caridade, de amor-serviço. «Com os olhos postos em seus filhos e em suas necessidades, como em Caná, Maria ajuda a manter vivas as atitudes de atenção, de serviço, de entrega e de gratuidade que devem distinguir os discípulos de seu Filho”(Aparecida 272).

Bom seria que imitando a Virgem Maria, cada um de nós visse o que falta para que a vida humana seja festa para todos. Prestar atenção é o primeiro passo para sermos solidários. É preciso inquietar-se com a dor, a carência, a humilhação do outro, não só para podermos agir, mas até mesmo para orar pelos irmãos com sinceridade e ternura.

Como primeira discípula, Maria nos estimula a estar a serviço, fazendo o que ele mandou, realizando com ele a tarefa de restabelecer a alegria da festa da vida.

Podemos ver Maria também, na narrativa de Caná, como um modelo de esperança. Olhando o mundo atual, com o pânico da economia, muitos tentando evadir-se do terror cotidiano do desemprego e da insegurança social através das emoções do futebol, dos shoppings e das novelas da TV e das drogas. Por mais alienados que sejam, estes elementos podem ser positivos. Mas, quando acordam do sonho passageiro, devem conviver com a tragédia cotidiana.

No mundo inteiro, massas procuram uma espiritualidade que ofereça esperança concreta de vida feliz. Alguns grupos prometem o fim do mundo para breve, em meio a catástrofes. Não é na sociedade como está, nem nos grupos fanáticos e radicais que se encontra a esperança. Devemos esperar produzindo, esperar formando, esperar arriscando-se, esperar provocando... Foi assim que Maria esperou o Messias provocando a hora de Deus.

 

Pe. José Assis Pereira Soares
Reitor do Seminário Diocesano de Campina Grande
Contato:
padreassis@uol.com.br


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