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O caminho da humildade e da gratuidade

 

Lucas reuniu em seu evangelho uma série de ensinamentos importantes de Jesus através de conversas e discussões em refeições. Na mesa se compartilha amizade e ideais, por isso tinha tanta importância comer na casa de alguém, era sinal de amizade, de estima. Jesus aceitou convites para comer, tanto que o chamaram de comilão (Lc 7,34). Assim como para os judeus a refeição tem um sentido sagrado, para o Mestre a mesa tem um lugar importante em seus ensinamentos. Ele “se serviu da linguagem do ‘comer com’ em seu anúncio do Reino... como ele aparece no evangelho compartilhando a mesa com outros: na casa de amigos, como Lázaro ou Mateus, ou de fariseus como Simão, e também de publicanos como Zaqueu, causando escândalo aos fariseus que entendem muito bem esta linguagem como aproximação de Jesus aos marginalizados e ‘pecadores’ da sociedade.

Jesus não quer excluir ninguém da salvação e da comunhão com Deus, e o simbolismo do compartilhar com eles a comida é o mais expressivo na hora de proclamar a boa-nova. Multiplica pães e peixes, converte água em vinho, aceita convites ou se autoconvida: está anunciando com ações simbólicas o perdão e o amor de Deus. Quando fala do Reino, frequentemente o faz em chave de banquete festivo ao qual Deus nos convida, como nas parábolas do filho pródigo ou do banquete do Reino. O gesto da refeição é, para Jesus, uma ação profética com a qual quer dar a entender que o Reino vem, que já está aqui, e que vem para todos.” (Aldazabal, 2002.)

As refeições com Jesus marcaram a sensibilidade dos discípulos, tanto as anteriores à Última Ceia como as posteriores com o Ressuscitado; acabaram centrando todo o novo Povo de Deus em torno de uma mesa: a mesa da Eucaristia, continuação das refeições com o Senhor, onde ele mesmo, de maneira sacramental é o alimento e o assunto da conversa.

O evangelho de hoje (Lc 14, 1,7-14) está ambientado numa refeição, na casa de um fariseu, num dia de sábado, depois da liturgia na sinagoga. (Lc 14,1) Trata-se de uma das refeições de fraternidade das comunidades dos fariseus chamadas “haburoth” (de “haber” = companheiro), isto é, ceias de membros de um grupo religioso. Os fariseus tinham o cuidado de não convidar ninguém que não cumpria as normas estreitas de comportamento, de preceitos, de comidas, etc. Não era admitido qualquer um a estas ceias fraternas que tinham duas funções principais: eram lugares para o debate e a controversia sobre diversos temas de interesse, e serviam aos anfitriões para demonstrar seu status e para competir em prestígio e reconhecimento social com seus convidados e concidadãos. Este último é o motivo pelo qual os convidados buscam reclinar-se nos lugares mais próximos do anfitrião. E é o que Jesus vai censurar. “Lucas relata este episódio porque sabe que nas suas comunidades há discórdias. Sabe que, não obstante as exortações do Mestre, os anicãos, os dirigentes dos diversos ministérios, se deixam levar pela ambição de ocupar ‘os primeiros lugares’. Trata-se do eterno problema da Igreja: todos deveriam servir, mas, na realidade, muitos buscam gananciosamente títulos honoríficos e procuram aparecer nos primeiros lugares; alguns se incham de vaidade até mesmo na celebração da mesa eucarística.” (Armellini, 1998.)

Jesus conta à mesa, naquela conversa que se prolonga após a refeição, duas parábolas, não sobre regras de etiqueta social ou do bom comportamento à mesa mas, lhes apresenta duas virtudes: a humildade e a gratuidade como condição radical para seus discípulos e para a práxis da comunidade.

Na primeira parábola, Jesus, tendo observado como os convidados rivalizavam-se pelos primeiros lugares perto do anfitrião, se dirige aos comensais sobre o lugar que devem ocupar quando forem convidados: “Quando alguém te convidar para uma festa, não te ponhas no primeiro lugar... ocupa o último lugar, de modo que, ao chegar quem te convidou te diga: Amigo, vem mais para cima... Pois todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha, será exaltado.” (Lc 14, 7-11) Na segunda parábola se dirige a quem o convidara para que saiba escolher os convidados: “Ao dares um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos; para que não te convidem por sua vez e retribuam do mesmo modo. Pelo contrário, quando deres uma festa chama os pobres... Feliz serás, então, porque eles não têm com que te retribuir...” (Lc 14,12-14) Claro, que nada é lógico nestas parábolas.

A humildade é uma das virtudes que menos estima recebe neste mundo de concorrências infernais, de lutas até à morte pelo poder, pelo prestígio social, pelos primeiros lugares e de estilos arrogantes de comportamento imitados infelizmente e que nos enoja, até no interior da própria Igreja. Acontece, infelizmente que quando somos convidados gostaríamos de ser os principais; e quando convidamos gostaríamos de fazê-lo tendo em conta a importância dos convidados. A parábola revela além da humildade a gratuidade. Dar sem esperar nada e fazê-lo sem distinção de pessoas. “De graça recebestes, de graça dai.” (Mt 10,8)

Porém, não é só isso o que se propõe neste conjunto de ensinamentos de Jesus à “mesa”. Aqui cabe outra explicação. Jesus é a fonte da humildade, “ele revela ao homem o caminho humano, se nos apresenta de forma desconcertante. Seu caminho e seus julgamentos não são os que o homem queria que fossem (Is 55,8; Rm 11,33). Seu caminho é caminho de pobreza, de rigor, de mansidão, que contrasta com a aspiração à força, ao poder, ao resultado seguro, etc. Inspirar-se num cruficado, num vencedor que sai vitorioso mediante a derrota, é loucura para quem não crê e é poder de Deus para quem crê (1Cor 1,18ss), mas é o poder do mistério, da abnegação total e sem reservas. Seu caminho se manifesta e cresce na humilhação, na contrariedade permanente de ter que viver o escândalo e a loucura da cruz (1Cor 1,24) que deixa de ser tal quando o resíduo judeu e gentio, que continua vigente no convertido, é vencido e superado”. (Fiores, 1989.)

A Cristo chega-se unicamente pelo caminho da conversão e como primeiro componente deste misterioso processo de uma vida nova em Cristo está a humildade fundamental. “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração”. (Mt 11,29) Em Jesus e de Jesus se nasce e se aprende a ser esse homem ou mulher de coração humilde.

Antes de conceituar a humildade é necessário vivê-la. Ela não é atitude abstrata, não se desenvolve nem amadurece de modo abstrato, é a vida com Jesus Cristo, nele amadurecemos os nossos comportamentos que nos caracterizam como seus seguidores. A humildade vai será assim em nós a força moderadora de nossas ambições e vai nos dando a capacidade de perseverar no caminho que o próprio Jesus percorreu, “aprendei de mim”. A humildade cresce na prova das humilhações que impedem nossos projetos e aspirações egoístas. A experiência e a reação diante de cada uma das indefinidas humilhações, podem ser orientadas para o sentido de construção da pessoa humilde. Ser humilde é ser consciente da própria fragilidade: conhecer e reconhecer as próprias limitações, só assim podemos calibrar corretamente o alcance de nossas possibilidades. Ser humilde é viver a gratuidade, é ser agradecido: saber que tudo o que somos e temos o devemos a Deus e a pessoas que nos ajudaram a crescer e amadurecer no aspecto pessoal, vocacional e profissional. Saber que nossos méritos não são nunca exclusivamente próprios, foi Deus que nos deu. É dele que procedem a vida, a beleza, a força, os talentos e a inteligência que temos. Nada nos pertence. De nada podemos nos vangloriar.

Também “a humildade se robustece no amor; é uma forma de manifestar amor... a humildade amadurece no equilibrio e na harmonia frágil e delicada entre o amor a si mesmo e o amor aos outros, unidos e vistos na perspectiva do amor a Deus; está unida à realidade da pessoa e tende a corrigir a forma de se representarem as relações e a considerá-las tais como são, e não como se quereria que elas fossem. Humildade é um dos termos mais ambíguos, presta-se a muitos enganos, da linguagem espiritual religiosa. Antes que uma série de atitudes a serem adotadas, a humildade é modo de ser e de relacionar-se. Caracteriza o homem no modo de avaliar e aceitar a si mesmo e na posição que adota no mundo e diante de Deus. É dimensão antropológica e configura-se segundo a orientação de quem a vive e o contexto em que se acha inserido.” (Ibid. Fiores.)

Não construamos uma religião à nossa medida, rodeada de atos sociais cheios de hipocrisia, bajulação e mentira, mesmo que isso ainda tenha lugar no interior de alguma igreja. Não é uma falsidade desmedida aparentar o que não se é? Muitas vezes existe um desvio entre o que a pessoa é e o que pensa ser, e vice-versa. Quanta mentira se esconde no farisaísmo de muitos comportamentos e declarações de humildade! “Existe uma falsa humildade que nos move a dizer ‘que não somos nada, que somos a própria miséria e o lixo do mundo, mas sentiríamos muito que nos tomassem a palavra ao pé da letra e a divulgassem. Em sentido contrário, fingimos esconder-nos e fugir para que nos procurem e perguntem por nós; damos a entender que preferíamos ser os últimos e situar-nos num canto da mesa, para que nos deem a cabeceira. A verdadeira humildade procura não dar aparentes mostras de sê-lo, nem gasta muitas palavras em proclamá-lo’. E o mesmo São Francisco de Sales volta a aconselhar-nos: ‘Não abaixemos nunca os olhos, mas humilhemos os nossos corações; não demos a entender que queremos ser os últimos, se desejamos ser os primeiros’. A verdadeira humildade está cheia de simplicidade e brota do mais profundo do coração, porque é antes de mais nada uma atitude diante de Deus.” (Carvajal, 1991.)

Em qual situação de nossa vida nos falta humildade? Quais são os “primeiros lugares” que aspiramos? Por que na vida favorecemos a uns e deixamos de lado a outros? Somos daquelas pessoas que buscam ascender mesmo que seja a custa de “pisar” os outros? Fazemos acepção de pessoas? Reconhecemos a cada pessoa como a um irmão? Estas perguntas nos podem ajudar a refletir sobre nossa vida à luz da Palavra de Deus de hoje.

A humildade e a gratuidade correspondente deve inundar nossas relações com os irmãos, aí reside uma condição fundamental do cristão. Jesus nos convida a seguir seu exemplo, no qual ele revela como é Deus: convida aos marginalizados e excluídos a sentarem-se à mesa com ele; transforma o banquete em um sinal do Reino. Porque só a gratuidade nos torna capazes de acolher o dom da felicidade, que é Deus mesmo. Vale a pena ler e reler, com muita atenção o breve conselho do sábio Sirac do Eclesiástico: "Quanto mais fores importante, tanto mais humilha-te para achares graça diante do Senhor: Numerosas são as pessoas altivas e famosas, mas é aos humildes que ele revela seus segredos.” (Eclo 3,18-19)

Bibliografia:

Aldazábal, José. A Eucaristia. Petrópolis, Editora Vozes, 2002.
Armellini, fernando. Celebrando a palavra, Ano C. São Paulo, Editora Ave Maria, 1998.
Fiores, Stefano; Goffi, Tulio. (org.) Diocionário de Espiritualidade. São Paulo, Paulinas, 1989.
Carvajal, Francisco Fernández. Falar com Deus, meditações para cada dia do ano. São Paulo, Editora Quadrante, 1991.

 

Padre José Assis Pereira



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