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  Colunista

Nome: Bruno Gaudêncio
Coluna: Mundo Literário
e-mail: gaudêncio_bruno@yahoo.com.br

 

Pouquíssimos são os estudos sobe os autores da literatura paraibana em nossas universidades.

 

Os “cânones literários brasileiros” dominam as abordagens nos cursos de letras da Paraíba e do Brasil. Machado de Assis, Guimarães Rosa, Lima Barreto, Clarice Lispector, Carlos Drummund de Andrade e tantos outros nomes de “peso” concentram as investigações, as avaliações, os ensaios críticos publicadas em revistas especializadas e na própria imprensa ás vezes. Todavia, no campo oposto, os escritores “locais”, - “os excluídos da história” e dos olhares dos estudiosos sobrevivem às margens dos olhares acadêmicos. Nomes como Sérgio de Castro Pinto, Vanildo de Brito, Hildeberto Barbosa Filho e Ascendino Leite, para citarmos apenas quatro bons exemplos da nossa literatura paraibana, tornam-se assim pequenas sombras “sem voz e vez” na produção científica da literatura.

 

Ascendino Leite é um exemplo bem claro destas estúpidas omissões existentes em nossas academias. Como autor de dezenas de jornais literários, publicados entre as décadas de 1960 e anos finais desta primeira década do século XXI, sua produção talvez nunca tenha sido objeto de tese ou dissertação, nem ao menos monografias ou estudos de casos. Excetuando os belos estudos analíticos dos escritores como Hildeberto Barbosa Filho e José Rafael de Menezes, e as interessantes biografias de Joacil de Brito e José Nunes, - quase nada temos para pesquisar sobre a obra de Ascendino.

 

Ascendino Leite nasceu na cidade de Conceição do Piancó, sertão da Paraíba, em 21 de junho de 1915. A infância modesta e a paisagem flagelada do Nordeste marcaram profundamente a alma deste poeta e renomado romancista. Foi funcionário público e jornalista, tendo sido também, em certo período de sua vida, redator de assuntos parlamentares. Dirigiu e chefiou a redação de vários e importantes jornais de São Paulo e do Rio de Janeiro. Publicou quatro romances: A Viúva Branca, A Prisão, Salto Mortal e O Brasileiro, mais de vinte jornais literários (como já nos referimos acima), destaque para os volumes: As Coisas Feitas, O Vigia da Tarde, Um Ano no Outono, Os Dias Esquecidos, além de algumas coletâneas de poemas, editadas em sua  maioria na década de 1990 na cidade de João Pessoa, onde voltou a morar na década de 1980.

 

O Jornal Literário, gênero que Ascendino dominou como poucos no mundo, - na realidade é uma espécie de diário literário e filosófico. Longe de trazer aspectos da intimidade e do cotidiano “fútil” da realidade, o Jornal Literário tem a função de divulgar o lado espiritual e intelectual de artistas e escritores, traçando um universo intimista de suas leituras e construções do mundo, através de avaliações de livros, peças, filmes e exposições, bem como descrevendo atitudes de sociabilidades intelectuais. O gênero, ou sub-gênero do diário íntimo, foi bastante cultuado na Europa, em especial na França, através de escritores como Chateaubriand, André Gide, Julien Green e Amiel. No Brasil, poucos foram os escritores, a exemplo de Josué Montello, Herberto Salles e o próprio Ascendino Leite, que produziram este tipo de narrativa. Críticos como Wilson Martins, consideram Ascendino Leite como o maior escritor deste tipo de narrativa no Brasil e talvez do mundo.

 

Na realidade, mais do que notas relacionadas às questões íntimas, Ascendino se debruça muito mais em comentar suas leituras cotidianas. Podemos afirmar que são infinitas os números de notas sobre autores brasileiros e estrangeiros, em especial franceses, sobre romances, poemas, contos e ensaios lidos e relidos, comentados e recomendados.

 

Além de seus diários de leitura, Ascendino se preocupa em refletir sobre os sentidos espirituais de sua vida, suas angústias, dúvidas, rancores, seu modo de perceber o mundo, sempre de uma maneira muito sensível, poética e humana.

 

A questão da espiritualidade domina muitas vezes as suas notas e reflexões, seja na descrição de impressões de leituras e sentimentos internos que Ascendino Leite sentiu ao observar o seu mundo arredor. Todavia, - sua intimidade, com filhos e esposa, fica em segundo plano, na realidade pouca são as referências ao seu cotidiano, práticas comuns do dia a dia, a atividade intelectual é que pulsa a sua escrita de si, moldando uma massa literária refinada e sensibilíssima.

 

Desta forma, como uma escrita produzida e iluminada pelo refinamento estético, sua obra ainda precisa de uma projeção acadêmica maior por parte dos pesquisadores paraibanos e brasileiros.

 

Já velhinho, com seus quase 100 anos de idade, Ascendino Leite ainda escreve solitário a procura de si mesmo, na escrita si, no último grau da palavra vida...

 

Bruno Gaudêncio

Jornalista e escritor paraibano


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