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  Colunista

Nome: Cidoval Morais
Coluna: Entrelinhas
e-mail: cidoval@gmail.com

O que ainda não se disse
sobre as eleições em Campina


Cidoval Morais de Sousa

O tema pode parecer saturado, mas como escrevi no artigo anterior, ainda há muito o que se pensar, investigar, discutir sobre os resultados das urnas no primeiro e no segundo turnos da eleição municipal em Campina Grande. Foi, sem sombra de dúvidas, uma eleição atípica. Por uma série de fatores, muitos aqui já discutidos. Dentre eles as operações engendradas pelos principais grupos de mídia do Estado (Correio, Paraíba e Associados), que, na defesa de seus próprios interesses, navegaram entre o distensionamento da crueza dos fatos, a desinformação intencional e a omissão deslavada. Reproduzo, a seguir, uma das mais sensatas, inovadoras e provocativas leituras desse pleito, feita por uma pesquisadora da UFCG, a professora Elizabeth Lima, a quem respeito muito, não apenas pelo trabalho que desenvolve no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais, mas pela figura humana de conversa agradável e cuidado extremo com o outro. Não preciso dizer que concordo em gênero, número e grau com tudo o que transcrevo abaixo. E convido a todos para uma leitura desarmada.


Passada mais ou menos a euforia da vitória em segundo turno das Eleições Municipais na cidade de Campina Grande, acreditamos ser necessário fazer algumas rápidas reflexões sobre a disputa eleitoral travada pelos candidatos. Refletiremos aqui não como cidadã, eleitora ou comentarista política, mas como antropóloga e estudiosa da relação entre Cultura, Mídia e Política.


O que assistimos na Campanha de 2008, e já iniciada na Campanha de 2004, foi o coroamento da espetacularização da política e da personificação dos personagens políticos. Para nos determos apenas aos dois principais candidatos, Rômulo Gouveia e Veneziano Vital, o que vimos foi à encenação e a teatralização do poder. De um lado, um candidato que vestiu muito bem o personagem de Common man ou homem comum, ou homem ordinário; aquele que vive igual a todo mundo, que conhece a todos e que tem uma vida extremamente rotineira, nos ditames do equilíbrio e da conciliação; de outro, o popstar, o homem charmoso, narcísico e que se sustenta, principalmente, em nome de sua beleza, dotes físicos e poder de sedução.


Os dois, cada um com seu estilo e performance, buscaram insistentemente conquistar o voto do eleitor; promoveram passeadas, caminhadas de bicicletas, expuseram ao máximo seus dotes e resistências físicas, como condição para administrar a cidade. O espetáculo e a encenação de personagens esteve o tempo inteiro exposto à curiosidade, deleite e sedução do eleitor.


E de tanto estandartizarem e provocarem tais diferenças, o common man e o popstar, produziram uma triste campanha na cidade. Triste porque conseguiram despertar nos eleitores àquilo que o ser humano tem de mais pernicioso e deplorável em seu espírito: às rivalidades, os revanchismos, os preconceitos e as discriminações de classe, de orientação sexual, de raça, de gênero, de corpo, de crença religiosa, só para citar algumas.


Nessa campanha teve espaço para tudo: para o aparecimento e da luta entre o bem e o mal, Deus e o Diabo, magros e gordos, bonitos e feios, heterossexuais e homossexuais, a luz e as trevas, o ungido e o satânico.


Um dos pressupostos mais caros à cultura e a Antropologia, é a busca incessante da garantia do respeito à diversidade e a negação de todo e qualquer tipo de discriminação social e vimos aflorar durante toda a campanha, exatamente o oposto: o que foi visto foi à reprodução da discriminação e do desrespeito à figura humana, ao cidadão, ao homem público, a res publica ; "as favas com a moral e com a ética".


O público eleitor deleitou-se enormemente com as músicas de campanha, sem saber talvez que ali estava caçoando também de sua própria mãe ou pai obeso, do seu irmão  ou amigo homossexual, do seu tio ou primo adeptos do candomblé, do seu vizinho negro, pobre ou deficiente. Que pena que os candidatos permitiram que suas campanhas fossem animadas com letras de músicas tão deprimentes, tão desrespeitosas, tão contrárias ao estímulo e ao respeito à diversidade cultural. 


O que vimos foi o estabelecimento das discórdias e desentendimentos entre familiares, cônjuges, amigos, vizinhos; a cidade literalmente entrou em guerra, a disputa não foi meramente uma disputa eleitoral, baseada nas diferenças partidárias, ideológicas e programáticas, a disputa foi muito mais complexa e antidemocrática, pois subtraiu do eleitor aquilo que lhe é mais caro: o direito de ouvir propostas e escolher os candidatos a partir desses expedientes. Ao incitar, literalmente incitar, enquanto estratégia política, a guerra, a discórdia e o preconceito, o que vimos foi o esvaziamento do discurso político e da verdadeira prática democrática.


Diríamos por último, para não mais nos alongarmos, que Campina ficou menos democrática nessas eleições e que quem na verdade venceu as eleições foi o espetáculo da política. Tomara que tenhamos dias melhores e que a paz volte verdadeiramente a reinar entre os cidadãos, também já tão cansados de encenar.


E aqui vale sempre a defesa: viva o respeito à diversidades

(Elizabeth Christina de Andrade Lima – Professora da UFCG – UASA)


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