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Nome: Thomás Bruno Oliveira
Colunae: Notas Arqueológicas
e-mail: contato@rededenoticias.com

Dia do Patrimônio Histórico: em Campina
temos o que comemorar?

 

Hoje, dia 17 de agosto é comemorado o Dia do Patrimônio Histórico, mas em Campina Grande será mesmo que temos o que comemorar?

 

oO Patrimônio Histórico de Campina está circunscrito no que chamamos de “Centro Histórico de Campina Grande”, uma área deliberada (em 2003) e delimitada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico do Estado da Paraíba (IPHAEP) em 28 de junho de 2004, compreendendo um cinturão englobando ruas e praças centrais da cidade contendo edificações em estilo Art-Dèco, Inglês, Neoclássico e vários monumentos.

 

No entanto, mesmo após o oficial tombamento e o reconhecimento, a cidade, com suas diversas universidades e associações, não consegue frear um intenso processo de “desenvolvimento” que impera e desfigura o seu Centro Histórico.

 

Há muito que o Centro Histórico de Campina Grande tem seus elementos mutilados pela voracidade do crescimento e do progresso que vem engolindo casarões, palacetes, prédios e monumentos. Recentemente, temos percebido uma severidade neste processo e um alcance de depredação sem limites. O Centro Histórico vem sendo profanado, mexido, mutilado, rasgando páginas do passado da cidade, desfigurando memórias e pondo fim a lugares e dispositivos de memória de áureas épocas.

 

Sendo uma cidade de interior, durante o veraneio e carnaval, a cidade literalmente adormece, notadamente o centro da cidade e os bairros mais abastados. Seus habitantes se dirigem ao litoral, onde se deleitam aproveitando férias e feriados religiosos. Nos períodos citados observamos que quase sempre em seu término, algum prédio é demolido na cidade, ato feito “às escondidas” em um momento em que a cidade dorme, assim vão nossas preciosas edificações.

 

Caminhar pelo Centro Histórico de Campina Grande tornou-se um exercício de paciência, principalmente no tocante a readaptação da visão. É simplesmente assombroso o processo de falecimento de nosso patrimônio histórico e os órgãos públicos fiscalizadores não têm uma participação efetiva na salvaguarda destes testemunhos do passado, o fato não se deve a ausência de denúncias, pode-se explicar (mas não compreender!) a falta de estrutura e de pessoal disponível nestas instituições.

 

A verdade é que, a cada novo dia, o caminhar pelas ruas da cidade “Rainha da Borborema” nos revela a situação caótica das nossas edificações históricas: além do total abandono, verificamos o BOTA-ABAIXO dessas edificações. Começaremos então a citar alguns dos danos verificados ao patrimônio histórico da cidade.

 

No que concerne às edificações, sucumbiram pela emergência do “progresso” e especulação imobiliária alguns prédios em estilo Neoclássico e Inglês, que remontam meados do século XIX e início do século XX, principalmente na Rua Irineu Jóffily (a antiga Rua da Estação); não faz mais parte da rua Dr. João Tavares o prédio da antiga SAMIC (Serviço Assistencial Médico Infantil Campinense, nas proximidades do Açude Velho, por muito tempo residência da tradicional família Rique) que foi totalmente demolido; também foi destruída a vila operária da famosa empresa têxtil de Campina Grande, num dos bairros mais antigos da cidade, o de Bodocongó, que se tornou terreno livre para venda, apenas. Inclusive, o prédio da empresa têxtil encontra-se sem telhado, em abandono e pode ser o próximo a literalmente tombar, infelizmente.

 

Acompanhamos o definhamento dos antigos armazéns da Estação Velha, sem teto e sem janelas, um lugar centenário que abrigou, em outrora, a riqueza da cidade na época do ‘ouro branco’ (o algodão) e que hoje refugia consumidores de entorpecentes. Na feira central, o prédio do antigo Cassino Eldorado está prestes a cair, e se cair???

 

O Cine São José, cinema popular de Campina que evoca a memória de um interessante período da cidade, também está irreconhecível. O Cine Capitólio (prédio que foi tombado em 12 de fevereiro de 2000) outro famoso cinema da cidade, só possui as quatro paredes externas, até seu piso de lajotas já sucumbiu.

 

Finalmente, qual é a função de um centro histórico? Qual a função de um tombamento? Qual a função do órgão fiscalizador? Uma edificação histórica que vai ao chão é parte da história de um povo (de uma época) que desaparece sem deixar vestígios. Enfim, se faz necessário que medidas EMERGENCIAIS sejam tomadas para estagnar este triste processo de destruição.

 

Manter o que ainda resta do patrimônio histórico/arquitetônico de Campina Grande é uma obrigação pois tem havido um grande desrespeito a memória da cidade, que esquecendo a sua história, esquece também sua identidade.

 

Não entendemos a preservação do patrimônio como um ato de barrar o progresso, deve-se sim desenvolver nestes locais atividades sustentáveis que preserve traços do passado e possa naturalmente abraçar o futuro. Em outras cidades temos exemplos muito bem sucedidos desta preservação, como o Museu do Seridó, situado na Casa do Senado da Câmara e Cadeia Pública da Vila do Príncipe, em Caicó-RN e a Casa da Cultura, ambiente de venda de artesanatos em Recífe-PE, abrigado em sua antiga cadeia.

 

Tombar uma área implica, acima de tudo, em pensar o que fazer e como fazer para a preservação do bem material tombado. Deve-se buscar saídas para que o tombamento não fique apenas no papel e entregue a própria sorte.

 

Prof. Thomas Bruno Oliveira


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